ESPECIALISTAS EXPLICAM DESAFIOS DO ENSINO DURANTE E PÓS-PANDEMIA

De repente, tudo se transformou naquele lugar. Aliás, o lugar virou plural. O quadro de anotações ganhou a forma de uma tela de computador, de tablet, de celulares, de televisão. As cadeiras não estão mais uma ao lado da outra. São as letras dos nomes dos alunos, fotos ou vídeos em ambiente de casa que se enfileiram em um espaço virtual. O caderno misturado ao mouse, ao estojo, à bateria que não pode descarregar. Em cenários privilegiados ou nos lugares de profundas desigualdades, a pandemia do coronavírus transformou a relação de ensino e aprendizagem em todo o mundo.  Professores e alunos veem-se em um dos principais desafios: ter que se reinventar.  Segundo brasileiros estudiosos da educação, a escola não será mais a mesma também depois da pandemia. Além do temor que o momento de crise propicia, eles veem que o distanciamento social pode gerar revisões sobre o que significa aprender.

Para especialistas, uma alteração no rumo da história educacional é a maior necessidade de participação das famílias na aprendizagem de crianças e também adolescentes. Pós-doutor em Educação, o professor Cristiano Muniz destaca que “família também é educadora”. Ele entende que o cenário muda a relação da família com a escola, justo em um momento difícil. “É necessário lembrar que todo propulsor da aprendizagem é a desestabilização”, ressalta. A professora Alice Esteves, diretora de uma  escola em Resende, no Rio de Janeiro, contextualiza que se trata de uma novidade o fato de todas as aulas precisarem ser adaptadas e irem para dentro das casas. Ela explica que já havia uma transformação em curso para os professores se posicionarem como verdadeiros youtubers que, para se aproximar dos estudantes, faziam vídeos e transmissões ao vivo para ajudar no entendimento das disciplinas. “Nós estamos passando por muitas mudanças que têm acontecido nas escolas e no mundo virtual”. Ela salienta que essas relações de professores, alunos e famílias estabelecem outros laços entre todas as partes.

Doutora em Educação, a professora Simone Lavorato entende que essa transformação provocada pela pandemia do coronavírus servirá de aprendizado para professores, alunos e suas futuras gerações, visto que foi rompido o modelo considerado padrão em sala de aula, em que pese o crescimento do ensino a distância e outras modalidades de ensino virtual.  Ela entende que o “modelo” tradicional é semelhante ao do século 19 e não se relaciona com o que se espera no século 21. “Um modelo em que o professor transmite esse conhecimento e o aluno apenas assimila”. O que ocorre é que o aluno deve ser protagonista do próprio caminho, como explicam os especialistas.

A pesquisadora, que é docente de uma rede educacional em Brasília, considera que é necessário compreender que, na contemporaneidade, é necessário estabelecer processos de maior engajamento, visto que o aluno chega em sala de aula com muito mais informações, o que “não significa que é conhecimento”. O professor passa a ocupar um papel de gestor desse conhecimento. “Hoje nossos alunos têm acesso a uma grande quantidade de informação em vista da internet e do uso que faz das redes sociais, por exemplo”. A especialista explica que o professor não vai perder o seu papel, mas vai passar a ocupar o papel de um facilitador. “O papel do professor muda. O papel do aluno muda. Passam a assumir uma nova roupagem”.

A especialista entende que essa transformação pode gerar novas experiências para a educação presencial. Mais: a tendência é que se torne uma gestão mais personalizada, o que significa atender às diferentes necessidades dos alunos. “Há necessidade de criar novas estratégias de ensino e aprendizagem. Um dos maiores desafios é que, diante da realidade de desigualdade social, não é possível imaginar que, mesmo no futuro próximo, todos os alunos vão dispor de computador ou internet.

“Nós sabemos que não basta ter tecnologia e várias metodologias diferenciadas se o nosso aluno, muitas vezes, não têm nenhum celular para ter acesso a essa informação”, afirma. Ela entende que a escola é espaço para combater as desigualdades.

A professora considera que as realidades devem transformar a rotina dos professores (e se tornarem ainda mais trabalhosas). Ela explica que os docentes precisam entender que adaptar uma aula não significa fazer transposição do que seria dado presencialmente. “Tem que provocar a interatividade. Lembrar situações práticas e reais”. Simone Lavorato considera que esse tipo de mediação não comporta aulas-palestras porque podem ter a indiferença dos alunos. “É necessário despertar a motivação do aluno”.

O professor Cristiano Muniz salienta que a ruptura faz com que a sociedade se mexa, “puxa o nosso tapete”. “Mudanças todos nós esperávamos: podia partir de uma guerra, de uma bomba. De repente vem um bichinho.. Isso faz com que nós nos repensemos como pessoas, como ser humano e natureza”. Ele explica que a constituição individual depende da relação com o próximo. “O professor planeja, mas ele não está fisicamente presente. Quem vai fazer a mediação é o adulto que cuida da criança. Professores precisaram estar longe para tentar entender quem é essa criança. Quando nós voltarmos dessa pandemia, nós não teremos mais os mesmos professores, não teremos as mesmas crianças. Estarão transformados. A forma de pensar vai fazer com que a escola se repense e também seja refeita a relação da escola com a família da criança”.

Fonte: Agência Brasil